Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Sem informação, não há quórum.

Últimas
Análises

O dilema de Lula: paz e amor ou Velho Testamento?

Em 2002, Lula venceu ao mudar de tom. No segundo turno de 2026, diante de Flávio Bolsonaro, o desafio é outro: saber quando confrontar e quando tranquilizar.

Compartilhe
Ilustração dividida ao meio: à esquerda, Lula com a faixa verde e amarela faz um coração com as mãos; à direita, sobre fundo vermelho, discursa ao microfone com o punho cerrado.

Lula já venceu uma eleição presidencial mudando de tom.

Em 2002, depois de três derrotas consecutivas, surgiu um candidato diferente daquele que o país havia conhecido nas campanhas anteriores. Menos beligerante, mais previsível e disposto a conversar com setores que, durante anos, enxergaram o PT com desconfiança. Foi nesse ambiente que nasceu o “Lulinha paz e amor”, talvez a mais bem-sucedida reinvenção eleitoral de sua carreira.

Vinte e quatro anos depois, o dilema voltou, mas de cabeça para baixo.

Lula não precisa mais demonstrar que é capaz de governar. Já governou por três mandatos e disputa um quarto. Também não representa a novidade. Em 2026, é o presidente que tenta permanecer no cargo diante de Flávio Bolsonaro, que terminou o primeiro turno à sua frente.

A pergunta, portanto, não é se Lula precisa mudar.

É qual Lula precisa aparecer agora.

O que 2002 ainda ensina

A campanha de 2002 costuma ser lembrada pela Carta ao Povo Brasileiro, pela aproximação com o mercado e pelo trabalho de Duda Mendonça. Tudo isso foi importante, mas houve uma transformação menos formal e talvez igualmente decisiva: Lula passou a recusar convites para a briga.

Enquanto José Serra e Ciro Gomes se desgastavam em confrontos, o petista trabalhava para reduzir sua rejeição e transmitir segurança a eleitores que ainda o viam com receio. O “paz e amor” não significava ausência de posição. Era uma estratégia para impedir que a disputa fosse decidida pelo medo que os adversários tentavam associar ao nome do petista.

Funcionou porque respondia ao problema daquela eleição.

O de 2026 é diferente.

O Lula atual carrega o peso dos anos no poder, das decisões de seu governo, da polarização acumulada e de uma rejeição que não será desfeita apenas com uma mudança de figurino. Ao mesmo tempo, precisa buscar votos fora de uma base que, sozinha, não foi suficiente para colocá-lo à frente no primeiro turno.

É aí que reaparece o velho Lula.

A tentação do confronto

Depois do primeiro turno, aliados passaram a defender uma campanha mais agressiva contra Flávio Bolsonaro, com maior ênfase nos riscos que uma mudança de governo poderia representar para políticas sociais, direitos trabalhistas e programas associados ao campo lulista. A própria campanha começou a discutir uma estratégia mais dura para o segundo turno.

É terreno conhecido para Lula.

Poucos políticos brasileiros dominam o palanque como ele quando encontra um adversário claro. Lula ironiza, provoca, constrói antagonistas e converte conceitos abstratos numa conversa compreensível. É a sua força, e é também onde mora o risco.

O Lula indignado frequentemente fala mais do que a campanha gostaria. Numa eleição apertada, uma frase mal colocada pode consumir dois dias de agenda e fazer do candidato o assunto quando ele preferiria discutir emprego, renda ou programas sociais.

A base petista pode querer o confronto. O eleitor que ainda está em disputa talvez queira outra coisa.

Nem paz demais, nem guerra demais

Reproduzir simplesmente o “paz e amor” de 2002 também parece insuficiente.

Naquela eleição, Lula podia representar simultaneamente a mudança e a moderação. Em 2026, ele é o governo. Quem deseja mudança pode encontrá-la justamente no adversário. Isso obriga o presidente a produzir contraste, explicar o que considera estar em risco e apresentar razões concretas para continuar.

A campanha não pode, portanto, fugir do embate.

Mas há uma diferença entre fazer o confronto necessário e transformar toda a eleição numa guerra moral.

Se Lula falar apenas para quem já está convencido de que Flávio Bolsonaro representa uma ameaça, pode entusiasmar a militância sem necessariamente ampliar seu eleitorado. Se suavizar demais o discurso, corre o risco de parecer passivo numa eleição em que o adversário entrou no segundo turno à frente.

Há ainda um terceiro grupo, o mais difícil: quem não votou no primeiro turno. Esse eleitor não precisa apenas ser convencido sobre quem escolher. Precisa primeiro encontrar uma razão para ir à urna.

É pouco provável que uma sequência interminável de ataques produza, sozinha, essa motivação.

Qual Lula chega ao segundo turno?

O maior equívoco seria imaginar que Lula tenha apenas dois personagens à disposição.

Não precisa escolher entre o candidato inteiramente conciliador de 2002 e o sindicalista disposto a responder a cada provocação. A experiência de mais de quatro décadas de política deveria servir justamente para combinar as duas coisas.

O Lula mais competitivo deste segundo turno talvez seja o que escolhe onde brigar.

Pode confrontar Flávio quando houver contraste real de projetos, mas não precisa reagir a toda provocação. Pode mobilizar a própria base sem falar apenas para ela. Pode defender o legado de seus governos sem tratar como ingrato quem não o reconhece. E, sobretudo, pode lembrar que eleição se ganha acrescentando votos, não apenas aumentando o entusiasmo dos que já estão convencidos.

Essa foi, em alguma medida, a lição de 2002.

O “paz e amor” não venceu porque Lula abandonou suas posições. Venceu porque ele entendeu que, para chegar à Presidência, precisava ser ouvido também por quem ainda não fazia parte de seu mundo.

Agora, Lula precisa reagir sem parecer refém da raiva, fazer contraste sem tratar o país inteiro como inimigo e não esquecer que o eleitor decisivo provavelmente não está procurando o melhor xingamento da campanha.

O Velho Testamento pode incendiar um palanque.

O “paz e amor” pode tranquilizar uma sala.

O segundo turno exigirá algo mais difícil: saber quando usar cada um.

Em 2002, Lula aprendeu a mudar para vencer.

Em 2026, talvez precise provar que aprendeu também a escolher as próprias batalhas.

Acompanhe a Quórum no Instagram
Compartilhe

Aponte um erro neste texto · Política de correções

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *