Da aliança ao confronto: quando as urnas responderam em Caxingó
Primeira eleição depois do rompimento entre o prefeito Magnum Cardoso e a vice Jackline Lima, 2026 deu a medida de quanto da antiga força eleitoral ficou com cada lado.
Durante anos, a fotografia política de Caxingó mostrou Magnum Cardoso e Jackline Lima do mesmo lado. Dividiram chapa, palanque e duas eleições. Em 2024, voltaram às urnas juntos e venceram com 3.376 votos, 68,40% dos válidos. Para Magnum, era uma mudança importante de patamar: quatro anos antes, havia conquistado a prefeitura por apenas 20 votos.
Depois, a aliança acabou.
Jackline passou a ocupar um campo distinto, acompanhada pelo seu grupo, enquanto Magnum permaneceu à frente da administração e do grupo que a sustenta. A partir dali, a discussão deixou de ser apenas sobre as razões do rompimento. Surgiu uma pergunta mais objetiva: numa chapa que havia recebido quase 70% dos votos, quanto daquela força eleitoral permaneceria com cada lado?
A eleição de 2026 ofereceu a primeira medida possível.
Quando os caminhos se separaram
Uma eleição geral não reproduz a lógica de uma disputa municipal. Os candidatos são outros, e as alianças mudam. Ainda assim, 2026 foi a primeira eleição em que Magnum e Jackline chegaram às urnas em campos diferentes.
Em Caxingó, do lado de Magnum, Firmino Paulo recebeu 1.008 votos para deputado estadual e Florentino Neto chegou a 1.495 para deputado federal. O prefeito também apoiou Marcelo Castro e Ciro Nogueira para o Senado.
No grupo ligado a Jackline, Dr. Thales Coelho recebeu 272 votos para deputado estadual, enquanto Marcos Aurélio obteve 385 para federal.
Nenhum desses números pode ser atribuído exclusivamente à liderança local que declarou apoio. Um candidato leva consigo partido, estrutura, relações pessoais e campanha própria. Mas a política também não pode ser analisada como se a distribuição dos votos fosse um dado irrelevante.
E o contraste apareceu em mais de uma disputa.
No Senado, a comparação ficou ainda mais interessante porque Marcelo Castro transitava entre os dois campos. A diferença estava no segundo voto: Magnum seguiu com Ciro Nogueira; Jackline, com Júlio César, o Julim do Lula.
Em Caxingó, Marcelo foi o mais votado, com 3.783 votos. Ciro recebeu 3.304. Julim ficou com 1.053.
No conjunto do Piauí, ocorreu o contrário entre os dois últimos: Julim terminou à frente de Ciro e conquistou uma das duas vagas no Senado. Em Caxingó, porém, Ciro teve uma vantagem ampla.
O resultado não transforma os 3.304 votos de Ciro em patrimônio eleitoral de Magnum. Mas mostra que, justamente onde a antiga chapa havia se dividido, a escolha do prefeito recebeu do eleitorado mais que o triplo dos votos dados à alternativa do outro grupo.
Não é pouco.
A conta de Marden
Há ainda um número especialmente curioso nessa eleição.
Marden Menezes foi apoiado diretamente por Silmara Cardoso, secretária municipal de Administração e irmã de Magnum, com a bênção política do prefeito. A candidatura, portanto, estava inserida no campo governista, ainda que o apoio tivesse uma condução própria dentro do grupo.
Marden recebeu 400 votos em Caxingó.
No resultado estadual, terminou com 32.135 votos. Draga Alana, também do PSD e imediatamente atrás na disputa interna, obteve 31.829. A diferença nominal entre os dois foi de apenas 306 votos.
Aqui, as línguas da política dizem que Caxingó elegeu Marden.
Desta vez, elas têm uma calculadora a favor.
Os 400 votos que recebeu no município superam os 306 que o separaram de Draga Alana, primeira suplente da legenda. O sistema proporcional tem regras específicas, e Marden se elegeu por média; a aritmética básica, porém, não muda.
Por favor, não matem o mensageiro. Aqui, só reportamos os dados.
O que 2026 mediu
Vistos separadamente, todos esses resultados admitem explicações próprias. Firmino tem trajetória. Florentino, eleitorado fiel. Ciro Nogueira e Julim disputaram uma eleição estadual muito maior do que qualquer articulação municipal. Marden já tinha relação política com Caxingó antes da campanha.
O significado aparece quando os números são colocados lado a lado.
Firmino, 1.008. Florentino, 1.495. Ciro, 3.304. Marden, 400, numa disputa decidida por 306.
Do outro lado, nas três disputas em que as escolhas divergiram: Thales, 272. Marcos Aurélio, 385. Julim, 1.053.
Isso não encerra a disputa política de Caxingó. Jackline continua sendo uma liderança local, tem história e ainda terá tempo para construir um projeto independente. A eleição municipal de 2028 será outro jogo.
Mas o ponto de partida já não é o mesmo.
Em 2020, Magnum venceu por 20 votos. Em 2024, ampliou a vantagem para 1.816. Depois veio o rompimento com a vice, e surgiu a dúvida sobre quanto da antiga força eleitoral permaneceria com o prefeito.
O primeiro saldo foi favorável ao seu campo.
Não porque uma única votação tenha resolvido a política do município, mas porque, nas diferentes disputas em que os dois grupos seguiram caminhos próprios, os números apontaram na mesma direção.
Durante anos, Magnum e Jackline dividiram o mesmo palanque.
Agora estão em lados diferentes.
E, no primeiro encontro dessa nova realidade com as urnas, Caxingó respondeu com números.
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