Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

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Como sobreviver a uma eleição ganha e vencer o vencedor

Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno à frente de Lula, mas a vantagem cobra disciplina. O maior risco agora é a sensação de que a eleição já está ganha.

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Montagem: Flávio Bolsonaro em primeiro plano diante de bandeiras do Brasil; ao fundo, Lula em preto e branco sobre o Congresso Nacional; à frente, uma urna eletrônica com 47,03% e um exemplar da Constituição.

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos. Lula, com 45,16%. A diferença foi de apenas 1,87 ponto percentual, numa das disputas presidenciais mais apertadas da história recente.

A vantagem é real. O risco também.

Quando uma campanha termina a primeira etapa melhor do que esperava, surge uma tentação perigosa: começar a agir como se estivesse administrando uma vitória já consumada. Os aliados se aproximam, o discurso muda de tom, os cargos entram na conversa e a confiança toma o lugar da cautela.

Flávio não precisa apenas derrotar Lula no segundo turno.

Precisa impedir que a sensação de vitória o derrote antes.

A vantagem que cobra disciplina

O primeiro turno foi eficiente para Flávio. Ele concentrou o voto antipetista, avançou em áreas onde o bolsonarismo havia encontrado maior resistência e chegou ao segundo turno à frente de um presidente no exercício do cargo.

Depois da apuração, o ambiente mudou rapidamente. Partidos se aproximaram, governadores declararam apoio e o mercado reagiu positivamente ao resultado. A candidatura ganhou ares de quem assumira o controle da corrida.

Foi quando começaram os ruídos.

Ao comentar a nova composição do Congresso, Flávio afirmou que teria maioria para “mudar a Constituição” e “redemocratizar” o país. O problema não estava em defender alterações constitucionais, absolutamente normais numa democracia, mas na amplitude da declaração e na ausência inicial de uma explicação clara sobre o que pretendia mudar.

Num segundo turno apertado, uma frase aberta demais costuma ganhar sentidos que o próprio candidato talvez não tenha pretendido.

Quem já vota em Flávio pode ouvir ali uma demonstração de força. Quem ainda está decidindo o voto pode perguntar apenas: mudar o quê?

E perguntas sem resposta são um presente para o adversário.

Quando a estratégia tropeça na própria imagem

O episódio com Fernanda Bolsonaro produziu outro tipo de desgaste.

A campanha vinha ampliando a presença pública da esposa como parte da tentativa de aproximar Flávio do eleitorado feminino. Nesse contexto, ganhou repercussão a cena em que, diante de jornalistas, ele pede a Fernanda que “segure a sua onda”.

Seria irresponsável transformar uma frase isolada numa conclusão sobre a relação do casal ou sobre o caráter de Flávio. Politicamente, porém, a cena importa por uma razão mais simples: contrariou a imagem que a própria campanha estava tentando construir. Os adversários perceberam rapidamente.

Nenhum desses episódios decide sozinho uma eleição. O problema é o acúmulo. Uma declaração mal explicada sobre a Constituição, uma cena inconveniente diante das câmeras, outra frase improvisada adiante, e a campanha gasta tempo explicando assuntos que não precisava ter criado.

O perigo de governar antes da hora

A direita ampliou sua presença no Congresso, lideranças do centro abriram negociação e vieram as especulações naturais sobre um eventual governo. Isso ajuda a candidatura, mas traz um efeito colateral.

Quanto mais gente fala como integrante de um governo futuro, maior o risco de o eleitor perceber arrogância, precipitação ou simplesmente excesso de confiança.

A eleição ainda não acabou. Os 47,03% que colocaram Flávio à frente também dizem que faltaram votos. E provavelmente não serão conquistados apenas repetindo a mesma linguagem que mobilizou sua base no primeiro turno.

Há eleitores que rejeitam Lula, mas não escolheram Flávio. Há os que votaram em outros candidatos, os ausentes e uma faixa de centro que pode decidir a eleição sem entusiasmo por nenhum dos dois.

Esse eleitor tende a olhar menos para a militância e mais para o comportamento de quem pretende ocupar a Presidência.

E Lula sabe aproveitar erros

Do outro lado está um adversário que conhece bem segundos turnos.

Lula entrou atrás e, por isso, sua campanha precisa retirar votos de Flávio, buscar ausentes e convencer quem ainda não aderiu definitivamente a nenhum campo. Nesse cenário, cada controvérsia produzida pelo candidato que lidera facilita o trabalho de quem tenta alcançá-lo.

A fala sobre a Constituição permite explorar receios institucionais. O episódio com Fernanda abre uma frente no eleitorado feminino. Outros excessos poderiam deslocar a eleição da insatisfação com o governo para uma discussão sobre o próprio Flávio. É exatamente o movimento que interessa a Lula.

Flávio chegou à frente falando de mudança. Se o segundo turno virar apenas um julgamento sobre suas frases, ele terá permitido que o adversário altere o assunto da eleição.

Vencer o vencedor

Talvez o principal desafio de Flávio agora seja entender que a estratégia de quem lidera é diferente da estratégia de quem ainda precisa aparecer.

Ele já apareceu.

Precisa preservar a vantagem sem se esconder, ampliar a coalizão sem dar a impressão de que a eleição terminou e falar para quem ainda não votou nele sem afastar a base que o trouxe até aqui.

É um exercício de disciplina.

No domingo, Flávio venceu Lula.

Na segunda-feira, ganhou uma adversária muito menos visível: a convicção de que a parte mais difícil já passou.

Talvez não tenha passado.

O primeiro turno mostrou que Flávio sabe chegar à frente.

O segundo mostrará se sabe permanecer candidato quando todos ao redor já começam a tratá-lo como presidente.

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