Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Sem informação, não há quórum.

Últimas
Coluna do MB

Os números por trás da história, e a história por trás do mito

Como Ciro Gomes se perdeu no caminho

Compartilhe
Ciro Gomes debruçado em uma janela de madeira de uma casa de taipa
Ciro Gomes. Foto: Divulgação

Ciro Gomes talvez seja um daqueles raros personagens da política brasileira que se explicam melhor pelas eleições que perderam do que pelas que venceram. Não pelo simples fato da derrota, que de extraordinário não teria nada. Lula perdeu três eleições presidenciais antes de chegar ao Planalto, e tantos outros atravessaram fracassos sem que isso diminuísse sua importância histórica. Com Ciro, a curiosidade está no modo como as derrotas foram sendo construídas, nas circunstâncias que as antecederam e, sobretudo, naquilo que ele fez com o patrimônio político que possuía antes de cada uma delas.

Na leitura deste singelo escritor, existe uma repetição difícil de ignorar. Algumas vezes, Ciro foi derrotado por adversários melhores posicionados; em outras, pela conjuntura. Há eleições, contudo, nas quais sua participação no próprio fracasso parece grande demais para ser relegada à nota de rodapé. Ao longo da vida pública, demonstrou uma capacidade singular de conquistar espaço e, pouco depois, tornar esse mesmo espaço menor. Por isso, dizer que Ciro perdeu algumas vezes também para Ciro já não soa apenas como provocação.

Sua biografia impede qualquer caricatura fácil. Foi deputado, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda, ministro da Integração Nacional e quatro vezes candidato à Presidência. Poucos políticos de sua geração acumularam tamanha experiência administrativa, exposição nacional e domínio do debate. Talvez por isso as derrotas chamem tanto a atenção: existe uma distância persistente entre aquilo que a biografia prometia e aquilo que a urna entregou.

Em 1998, na primeira candidatura presidencial, Ciro terminou em terceiro lugar, com 10,97% dos votos válidos. Quatro anos depois, ampliou a votação absoluta para pouco mais de 10 milhões de votos, mas os 11,97% o deixaram em quarto lugar. Eram eleições diferentes e seria preguiçoso atribuí-las à mesma causa. Ainda assim, já aparecia uma característica que o acompanharia: uma enorme capacidade para ocupar o debate, sem igual facilidade para transformar atenção em coalizão duradoura.

Política majoritária, para tristeza dos que acreditam que o melhor argumento deveria encerrar a discussão, não funciona como uma banca de doutorado. Exige partido, prefeito, liderança local, composição, paciência e relações que continuem existindo depois da divergência.

Foi justamente isso que 2018 parecia esconder.

O Ceará que parecia ser de Ciro

Na eleição presidencial de 2018, Ciro recebeu 1.998.597 votos no Ceará, 40,95% dos válidos, e terminou à frente de Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. A fotografia era poderosa. Num Estado profundamente ligado eleitoralmente a Lula, quase dois milhões de cearenses haviam escolhido Ciro para presidente.

A ressalva é necessária: Lula não estava na urna. Haddad assumira a candidatura durante a campanha, e ninguém pode saber qual teria sido o resultado com o petista concorrendo. Ainda assim, consolidou-se a impressão de que existia um “Ceará de Ciro”, um patrimônio eleitoral quase pessoal, amadurecido durante décadas de presença da família Gomes na política estadual.

Só que aquela fotografia escondia gente demais.

O Ceará de 2018 tinha Ciro, mas tinha também Cid Gomes, Camilo Santana, o PDT, o PT, prefeitos e uma extensa rede de lideranças municipais. Enquanto Ciro vencia a disputa presidencial no Estado, Camilo, petista, era reeleito governador com votação próxima de 80%. O mesmo eleitor podia votar nos dois sem enxergar qualquer contradição. O grupo político ainda suportava essas ambiguidades.

Isso altera profundamente a leitura dos 40,95%. Os votos eram de Ciro porque foram depositados nele, claro. Mas nasceram dentro de um ambiente político muito maior do que Ciro. Talvez o primeiro equívoco tenha sido confundir o voto recebido com uma espécie de matrícula imobiliária sobre o eleitor.

A urna registra uma escolha. Não passa escritura.

Em 2022, a diferença ficou brutalmente visível. Lula recebeu 65,91% dos votos válidos no Ceará, enquanto Ciro, que quatro anos antes ultrapassara os 40%, caiu para cerca de 6,8%. O contexto nacional era outro e a polarização Lula-Bolsonaro esmagava terceiros nomes, razão pela qual seria intelectualmente desonesto comparar os percentuais de maneira mecânica. Mas também seria cômodo demais fingir que nada havia acontecido.

Aquele eleitorado de 2018 jamais fora um bloco imutável pertencente a Ciro.

Era uma construção.

E construções políticas têm um inconveniente: precisam de manutenção.

2022 e o duelo das versões

A parte mais importante de 2022, porém, talvez não tenha acontecido na eleição presidencial. Aconteceu dentro do Ceará, quando a longa convivência entre Ciro, Cid, Camilo, PDT e PT finalmente se rompeu.

Até hoje, cada personagem conta uma história diferente sobre aquele divórcio. E todo divórcio político, como os demais, costuma produzir duas versões e nenhuma delas economiza culpa.

Na narrativa de Ciro, Camilo e o PT abandonaram a aliança porque não aceitaram a escolha de Roberto Cláudio pelo PDT. Ciro passou a tratar o episódio como traição, acusou Camilo de deserção e, mais tarde, usaria termos ainda mais duros para descrever o antigo aliado.

Camilo conta a história pelo avesso. Segundo sua versão, existia um entendimento para que Izolda Cela, que assumira o governo após sua saída para disputar o Senado, fosse a candidata natural à continuidade do grupo. Ciro teria rompido essa construção ao insistir em Roberto Cláudio.

Cid talvez seja a personagem mais incômoda nessa disputa de memórias. Estava dentro da família Gomes, do PDT e da aliança com Camilo. Em 2022, recusou-se a mergulhar na campanha de Roberto Cláudio e, posteriormente, passou a atribuir a ruptura às escolhas de Ciro e do próprio Roberto, afirmando que havia um entendimento em torno de Izolda. A própria Izolda também declarou depois que sua candidatura vinha sendo construída com a participação das lideranças do grupo.

Não cabe transformar lembranças políticas em sentença judicial. A política raramente produz ata assinada dos acordos importantes; trabalha mais com conversas, sinais, compromissos e, quando tudo dá errado, uma epidemia de memória seletiva.

Os fatos públicos são mais simples. O PDT escolheu Roberto Cláudio. O PT lançou Elmano. Cid não acompanhou Ciro. Izolda deixou o PDT. A aliança que durante anos organizara boa parte da política cearense acabou.

A urna acrescentou uma informação desagradável para a versão defendida pelo grupo de Ciro. Roberto Cláudio, apresentado como o candidato mais competitivo, terminou em terceiro lugar. Elmano, inicialmente menos conhecido, venceu no primeiro turno com 54,02%.

Isso não decidiu quem traiu quem. A urna não costuma ter paciência para discussões conjugais. Mostrou apenas quem reorganizou melhor os pedaços depois da separação.

Camilo elegeu Elmano governador e a si próprio senador. Cid preservou relações com o outro lado e acabaria se afastando politicamente do irmão. Ciro ficou com Roberto Cláudio e com a narrativa de que havia sido traído.

Quatro anos depois, essa velha discussão voltaria à urna.

De quase todos os lados para o mesmo lugar?

Há outro elemento que precisa entrar nessa história: Ciro passou por quase todos os ambientes relevantes da política brasileira contemporânea sem jamais aceitar que algum deles o definisse por inteiro.

Começou no PDS, sucessor da Arena, migrou para o PMDB no ambiente da redemocratização e depois ajudou a construir o PSDB no Ceará. Foi tucano quando o partido ainda pretendia ocupar uma social-democracia de centro, tornou-se governador e chegou ao Ministério da Fazenda de Itamar Franco. Depois vieram PPS, PSB, PROS e PDT.

No meio desse caminho, apoiou Lula no segundo turno de 2002 e tornou-se ministro da Integração Nacional no primeiro governo petista. Durante anos ocupou tranquilamente a centro-esquerda, primeiro no PSB e depois no PDT, tentando construir um desenvolvimentismo que dialogasse com a esquerda sem se confundir com o PT.

Em 2018, apresentou-se justamente como alternativa a Lula e Bolsonaro, ainda dentro de uma moldura de centro-esquerda. Em 2022, o enfrentamento com Lula ganhou outra intensidade e Ciro passou a buscar também o eleitor de centro-direita que rejeitava o petismo, mas não se sentia plenamente confortável com Bolsonaro.

O cálculo parecia elegante no papel. O problema é que eleitor não é peça de Lego. Parte da esquerda passou a enxergá-lo como adversário, enquanto a direita já possuía seu próprio candidato. Ciro terminou prensado entre os dois blocos que pretendia superar.

Depois de 2022, a aproximação à direita deixou de ser apenas retórica. Em 2025, Ciro voltou ao PSDB. Em 2026, sua candidatura ao governo reuniu PSDB, PL, União Brasil e PP, entre outras forças, com Roberto Cláudio como vice. O PL cearense, ligado nacionalmente ao bolsonarismo, formalizou o apoio, e a campanha passou a reunir no mesmo palanque antigos tucanos, direita conservadora e personagens diretamente identificados com o campo bolsonarista.

É uma caminhada longa para quem, alguns anos antes, tentava representar a esquerda não petista.

Isso significa que Ciro tenha simplesmente “virado bolsonarista”? Não. Seria uma leitura intelectualmente preguiçosa. Suas ideias econômicas continuaram carregando elementos desenvolvimentistas incompatíveis com boa parte da direita liberal, e coalizão eleitoral não é certidão ideológica.

Mas chega uma hora em que as companhias também entram na fotografia.

Ciro já esteve no partido herdeiro da base do regime militar, no PMDB, no PSDB, apoiou Lula, foi ministro do PT, passou pelo PSB, tentou encarnar o trabalhismo no PDT e terminou 2026 numa coalizão que alcançava a direita conservadora e o PL bolsonarista. Talvez respondesse que continuou no mesmo lugar enquanto o mundo político mudava ao redor dele. Há alguma verdade nisso. Mas, para o eleitor, tamanha mobilidade cobra uma pergunta simples: afinal, onde exatamente fica esse lugar?

Talvez esse seja um dos dramas de Ciro. Quis durante anos ser maior que o PT sem precisar ser a direita; depois, ser oposição ao PT sem ser bolsonarista; por fim, para derrotar o PT no Ceará, aceitou caminhar com uma direita que incluía justamente o bolsonarismo que passara anos combatendo.

Não é necessariamente incoerência. Pode ser pragmatismo.

O problema do pragmatismo é que ele também aparece na foto.

2026: os votos voltaram, o mundo não

A campanha de 2026 começou a sugerir que Ciro encontrara um novo caminho. Em agosto, o Datafolha chegou a registrá-lo com 52% contra 33% de Elmano. A mesma pesquisa mostrava avaliações positivas entre seus eleitores para alianças com Capitão Wagner e André Fernandes, sinal de que aquela nova engenharia à direita havia conseguido alguma aderência.

À medida que a eleição avançou, porém, a diferença diminuiu. Na véspera da votação, o Datafolha apontava Elmano com 50% dos votos válidos e Ciro com 47%, ainda em situação de empate técnico.

A urna resolveu a dúvida em 4 de outubro.

Elmano foi reeleito no primeiro turno com 53,19% dos votos válidos e 2.875.573 votos. Ciro recebeu 46,22%.

A derrota comporta duas leituras que precisam conviver. Ciro mobilizou quase metade do eleitorado cearense e demonstrou uma força que sua votação presidencial de 2022 fazia parecer perdida. Não era pouco. Ao mesmo tempo, perdeu no primeiro turno para o mesmo grupo político que havia emergido da ruptura de 2022.

A fotografia ficou ainda mais eloquente porque Cid Gomes foi eleito senador no campo adversário, ao lado de Luizianne Lins.

Em 2018, Ciro, Cid e Camilo ainda cabiam, com todas as diferenças, dentro da mesma arquitetura estadual. Em 2026, Ciro enfrentou uma parte significativa daquele mundo nas urnas e perdeu.

É aqui que talvez esteja o dado mais duro da eleição.

Ciro recuperou votos.

Não recuperou a centralidade.

Durante muito tempo, ele não foi apenas um político forte no Ceará. Ocupava um dos lugares a partir dos quais a própria política cearense se organizava. Em 2026, continuou forte, mas já estava fora desse centro de gravidade.

A diferença é enorme.

Os números por trás do mito

Três números contam boa parte dessa história: 40,95% no Ceará para presidente em 2018; cerca de 6,8% em 2022; e 46,22% para governador em 2026.

Observados sozinhos, sugerem um político que foi grande, encolheu dramaticamente e voltou a crescer.

A história escondida dentro deles é melhor.

Em 2018, Ciro tinha ao redor de si uma arquitetura política que ampliava sua capacidade eleitoral. Em 2022, descobriu que boa parte daquele eleitorado podia escolher outro caminho e que a velha coalizão sobreviveria à sua saída. Em 2026, conseguiu reconstruir uma votação gigantesca com aliados muito diferentes daqueles de oito anos antes.

E perdeu mesmo assim.

Talvez essa seja a derrota mais reveladora de sua trajetória recente, não porque tenha sido a mais humilhante, pois 2022 foi incomparavelmente pior, mas porque elimina uma dúvida. Ciro ainda sabe conquistar votos. Ainda mobiliza milhões de cearenses. Ainda ocupa espaço político suficiente para liderar pesquisas e ameaçar um governo estruturado.

O que ele não conseguiu reconstruir foi o mundo que um dia existiu em volta desses votos.

A política que o derrotou em 2026 não apareceu durante a campanha. Ela foi sendo construída ao longo dos anos e, em algum momento, boa parte dela esteve ao lado de Ciro.

É tentador atribuir a derrota a Lula, ao PT, a Camilo, a Cid, à máquina estadual, à campanha adversária ou aos erros da direita. Certamente há pedaços da explicação em todos esses lugares. Mas reduzir o resultado aos outros seria repetir justamente o vício que esta trajetória convida a examinar.

Ciro parece ter perdido, ao longo dos anos, menos a capacidade de convencer eleitores do que a habilidade de conservar ao redor de si as relações que transformam votos em poder.

Ele sabe entrar numa discussão.

Talvez nunca tenha aprendido, com a mesma excelência, a sair dela sem deixar alguém pelo caminho.

O último adversário

Não sei se 2026 encerra a carreira eleitoral de Ciro Gomes, e qualquer sentença agora teria mais pretensão do que análise. Sua própria história recomenda cuidado com enterros políticos prematuros.

A derrota, porém, permite enxergar uma ironia difícil de ignorar. Ciro nunca sofreu por falta de oportunidade, talento ou exposição. Teve tudo isso em abundância. Também nunca lhe faltaram eleitores. Em diferentes momentos, milhões de brasileiros e cearenses escolheram seu nome.

O que parece ter faltado em momentos decisivos foi a capacidade de preservar ao redor de si aquilo que a política exige depois que termina o discurso: gente disposta a continuar caminhando junto.

Em 2018, quase dois milhões de votos criaram a impressão de que havia um Ceará de Ciro. Em 2022, descobriu-se que parte daquele território era compartilhada. Em 2026, ele reuniu quase dois milhões e meio de votos numa composição política completamente diferente e, ainda assim, ficou do lado de fora do governo.

Talvez esteja aí a história por trás do mito.

Ciro não se perdeu porque deixou de ter eleitores. Perdeu tendo muitos. Não se tornou irrelevante. Perdeu sendo competitivo. E não foi simplesmente expulso do jogo por forças que sempre lhe foram estranhas; parte da coalizão que o venceu era formada por personagens que um dia dividiram com ele a mesma mesa.

Por isso continuo achando que Ciro Gomes se explica melhor pelas derrotas. Elas mostram a força dos adversários, mas revelam também as escolhas feitas antes que o adversário chegasse.

Em 2026, Ciro perdeu para Elmano e para uma coalizão mais ampla. Perdeu para um Ceará político que havia aprendido a se reorganizar sem ele.

Mas parte do caminho até essa derrota foi pavimentada pelo próprio Ciro.

Depois de tantas eleições, talvez o mais incômodo seja admitir que o adversário que mais vezes atravessou seu caminho não estava necessariamente do outro lado do palanque.

Acompanhe a Quórum no Instagram
Compartilhe

Aponte um erro neste texto · Política de correções

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *