Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Sem informação, não há quórum.

Últimas
Eleições 2026

Padroeira no centro da disputa: o 12 de outubro em que Nossa Senhora Aparecida virou assunto de eleição

Boato que ligou Flávio Bolsonaro à retirada do título de padroeira passou pelo TSE e pelo STF, entrou nos comícios de Lula e marca o feriado desta segunda, a duas semanas do segundo turno.

Compartilhe
Imagem original de Nossa Senhora Aparecida, com coroa e manto azul, no nicho da Basílica do Santuário Nacional
Imagem original de Nossa Senhora Aparecida, no Santuário Nacional. Foto: Jacqueline Moia/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Nesta segunda-feira (12), o Brasil celebra Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país. A data é feriado nacional desde 1980, por força da Lei nº 6.802, e coincide com o Dia das Crianças, instituído por decreto em 1924. Como cai numa segunda, o feriado emenda com o fim de semana.

Em 2026, a festa religiosa chega carregada de política. Desde o fim de setembro, a imagem encontrada por três pescadores no século 18 virou tema de boato, de decisões judiciais conflitantes e de discurso de palanque na disputa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se enfrentam no segundo turno em 25 de outubro.

Como começou o boato

Segundo levantamento da agência de checagem Aos Fatos, tudo começou na noite de 24 de setembro, durante um comentário na GloboNews. A jornalista Maria Cristina Fernandes relatou que setores católicos reagiam a uma suposta articulação evangélica para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira. Ela não citou Flávio, mas trechos do comentário passaram a circular nas redes com o nome dele. A emissora depois exibiu uma correção.

As publicações se apoiavam num projeto antigo. Em 2007, o então deputado Victorio Galli (PMDB-MT) apresentou o PL 2623, que mudaria a lei do feriado para definir a santa como padroeira apenas “dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada em 2008. Galli foi assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro e neste ano foi candidato a deputado federal pelo PP.

Flávio negou, em vídeo, qualquer intenção de mexer no título da padroeira, e a campanha dele acionou a Justiça Eleitoral.

Uma semana de vaivém judicial

O caso passou por quatro decisões em seis dias:

  • 25 de setembro: o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), classificou como “notoriamente inverídica” a associação de Flávio à retirada do título e mandou remover 1.125 publicações, com multa diária de R$ 50 mil para as plataformas que descumprissem a ordem. Conteúdos jornalísticos, satíricos e humorísticos ficariam preservados, mas a ordem atingiu também posts sem menção direta ao boato, como os da página do Santuário Nacional;
  • 27 de setembro: o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu a um pedido do humorista Antonio Tabet, liberou uma publicação dele que havia sido apagada e mandou restabelecer outras removidas com o mesmo fundamento;
  • 28 de setembro: o ministro Luiz Fux, também do STF, suspendeu os efeitos da decisão de Dino e restabeleceu a ordem de Mendonça;
  • 30 de setembro: o plenário do TSE manteve, por maioria, a remoção dos conteúdos. Os ministros Ricardo Villas Bôas Cueva e Floriano de Azevedo Marques divergiram em parte, por entenderem que só o conteúdo claramente falso deveria sair do ar. Mendonça reviu o voto e liberou a publicação de Tabet.

A santa nos palanques

O tema chegou rapidamente aos comícios. Em 27 de setembro, Lula disse que mexer com Nossa Senhora Aparecida “não é aceitável”. Dois dias depois, num ato em Fortaleza, ergueu uma imagem da santa, fez o sinal da cruz e afirmou que ela continuará padroeira enquanto ele for presidente.

Flávio, por sua vez, acusou pessoas “de dentro da CNBB” de ajudarem o PT a espalhar o boato. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil respondeu em nota que não produziu, não autorizou nem ajudou a difundir informações falsas sobre a eleição. Num podcast católico, o senador comparou o episódio à facada sofrida pelo pai em 2018. Derrotado no primeiro turno e hoje aliado de Flávio, Ronaldo Caiado também entrou na discussão e pediu respeito à fé do povo.

No dia do primeiro turno, 4 de outubro, a CNBB publicou uma mensagem em que confiava o país à proteção da padroeira e pedia um Brasil “reconciliado, soberano, justo e fraterno”.

Nas urnas da cidade de Aparecida (SP), Flávio teve cerca de 12,3 mil votos (58,3%) no primeiro turno, contra cerca de 6,8 mil (32,1%) de Lula, segundo o jornal A Crítica, de Campo Grande (MS).

Não é a primeira vez

Segundo o Aos Fatos, o boato de 2026 retoma narrativas falsas que circularam em 2018 e 2022. Em 2018, uma página falsa de jornal dizia que Jair Bolsonaro havia negociado com o bispo Edir Macedo mudanças na imagem da santa. Em 2022, uma montagem atribuída ao então presidente anunciava o fim do feriado de 12 de outubro. Bolsonaro nunca publicou o conteúdo.

O 12 de outubro de 2022, aliás, também foi tenso. Em plena campanha de segundo turno, Bolsonaro acompanhou a missa na Basílica entre aplausos e vaias, e o coordenador da celebração precisou pedir silêncio três vezes. Do lado de fora, apoiadores do então presidente hostilizaram equipes de TV que cobriam a festa, o que levou o Sindicato dos Jornalistas a divulgar nota de repúdio.

Até o fechamento desta matéria, a Quórum não localizou anúncio oficial de visita de Lula ou de Flávio ao Santuário neste feriado.

A festa de 2026

A festa da padroeira deste ano tem como tema “Com Maria em comunidade conhecer e praticar a palavra”. A novena começou em 3 de outubro. Nesta segunda, a programação do Santuário prevê:

  • 9h: missa solene na Basílica;
  • 12h: missa das crianças;
  • 15h: consagração solene na Basílica Histórica;
  • 18h: missa de encerramento;
  • 19h30: procissão solene, seguida de queima de fogos.

Curiosidades sobre a padroeira

  • O achado no rio. Em outubro de 1717, os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso lançaram as redes no rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá (SP), em busca de peixe para a visita do conde de Assumar, governador da capitania. Primeiro veio o corpo de uma pequena imagem; depois, a cabeça. Em seguida, segundo a tradição, a pesca foi farta.
  • Imaculada Conceição. A peça representa Nossa Senhora da Conceição. O nome “Aparecida” veio do povo, por causa da forma como ela surgiu nas águas.
  • Pequena e frágil. A imagem é de terracota, tem 36 centímetros e pesa cerca de 2,5 quilos. A cor escura costuma ser atribuída ao tempo em que ficou submersa no lodo do rio e à fumaça das velas.
  • Presente de princesa. A coroa de ouro e o manto azul que a santa usa foram doados pela princesa Isabel, no século 19.
  • Padroeira desde 1930. O título foi concedido pelo papa Pio XI.
  • Quebrada em mais de 200 pedaços. Em 16 de maio de 1978, a imagem foi arrancada do nicho durante uma missa e se partiu ao cair no chão. A artista plástica Maria Helena Chartuni levou cerca de 33 dias para restaurá-la no Masp, em São Paulo.
  • O chute na santa. Em 12 de outubro de 1995, o bispo Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma réplica da imagem durante um programa na TV Record. O episódio provocou forte reação de católicos em todo o país.
  • Três papas em Aparecida. João Paulo II consagrou a Basílica em julho de 1980. Bento XVI esteve lá em 2007, e Francisco, em 2013.
  • Gigante de tijolos. Projetado pelo arquiteto Benedito Calixto Neto, o Santuário Nacional tem 143 mil metros quadrados de área construída e é considerado o maior santuário mariano do mundo. Recebe cerca de 12 milhões de romeiros por ano.

Fontes: Santuário Nacional de Aparecida, Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Supremo Tribunal Federal (STF), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Aos Fatos, Poder360, Gazeta SP, Diario de Pernambuco, Estado de Minas, A Crítica, Band, O Povo e Olhar Digital.

Acompanhe a Quórum no Instagram
Compartilhe

Aponte um erro neste texto · Política de correções

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *