Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

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Eleições 2026

De Buriti dos Lopes à Alepi: como Júnior Percy se tornou o novo peso-pesado do Norte

Ex-prefeito de uma cidade de cerca de 20 mil habitantes, ele recebeu votos em 148 dos 224 municípios do Piauí, fez quase 2,6 mil votos em Teresina e terminou a eleição com mais que o dobro da votação de Gracinha Mão Santa.

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Júnior Percy, deputado estadual eleito pelo PP, sorri sentado a uma mesa enquanto assina documentos
Foto: Divulgação

Até poucos meses atrás, se alguém fosse chamado a apontar o nome mais óbvio para representar politicamente o litoral na Assembleia Legislativa, provavelmente escolheria Gracinha Mão Santa. Havia razões para isso: mandato em curso, sobrenome conhecido, base em Parnaíba e uma votação expressiva na eleição anterior. A urna de 2026, porém, resolveu contar outra história. Júnior Percy, do PP, saiu de Buriti dos Lopes para conquistar uma cadeira na Alepi com 29.628 votos, enquanto Gracinha, agora no MDB, terminou com 13.659 e ficou na suplência.

O resultado chama atenção, mas é o mapa que realmente explica a eleição. Percy não venceu apenas porque foi muito bem em sua cidade. Preservou uma base fortíssima em Buriti, entrou em Parnaíba, espalhou votos pela Planície Litorânea, avançou pelo Norte e ainda apareceu com quase 2,6 mil votos em Teresina. Para alguém cuja base original era um município de aproximadamente 20 mil habitantes, o salto foi considerável.

De Buriti para Parnaíba

Em Buriti dos Lopes, Percy recebeu 7.928 votos, equivalentes a 55,1% dos válidos para deputado estadual. O número tem um significado especial porque supera os 7.495 votos com que havia sido reeleito prefeito em 2020. Em outras palavras, recebeu para deputado estadual mais votos na cidade do que havia recebido para continuar governando-a. Isso demonstra uma base excepcionalmente consolidada, mas também revela o limite natural de qualquer candidatura proporcional: reduto ajuda, às vezes ajuda muito, mas não resolve tudo sozinho.

Foi Parnaíba que mudou a escala da candidatura. Em 2022, Gracinha havia recebido 22.904 votos na cidade, quase 29% dos válidos. Quatro anos depois, o cenário já era outro. Ela rompeu com o prefeito Francisco Emanuel, do PP, em março de 2025 e, no ano seguinte, deixou o partido para ingressar no MDB. O prefeito, por sua vez, tomou outro caminho e apostou em Percy. Vieram carreatas, vereadores, lideranças e uma estrutura municipal organizada em favor de um candidato que, vale lembrar, não era de Parnaíba.

O resultado foi eloquente. Gracinha caiu para 8.909 votos, enquanto Percy chegou a 7.983. Mais importante do que a proximidade entre os dois números é perceber que Parnaíba se tornou a maior fonte individual de votos da campanha de Percy, responsável por 26,9% de toda a votação. O candidato de Buriti encontrou seu maior colégio eleitoral justamente em Parnaíba, e há alguma ironia política nisso. Durante muito tempo, sobrenome e tradição pareciam suficientes para organizar parte relevante da política parnaibana. Em 2026, a estrutura lembrou que também sabe fabricar novidade.

Isso não transforma Percy automaticamente em dono político da cidade, nem retira de Gracinha a relevância que ainda possui. Uma eleição não produz escritura de território. O que ela faz é registrar mudança de força, e foi exatamente isso que aconteceu ali.

O mapa saiu do litoral

A candidatura poderia ter terminado como uma operação bem-sucedida entre Buriti e Parnaíba, mas foi além. Percy recebeu votos em 148 dos 224 municípios piauienses e alcançou pelo menos 1% dos válidos em 22 deles. Na Planície Litorânea, naturalmente, o desempenho foi mais forte: teve 24,9% dos votos válidos em Murici dos Portelas e 24,2% em Caxingó; em Bom Princípio do Piauí, foram 861 votos, ou 15,6%; em Caraúbas, 602, equivalentes a 14,2%; e, em Luís Correia, 1.056.

Depois vieram outros pontos do Norte. Piracuruca lhe deu 1.240 votos; Esperantina, 601; Joaquim Pires, 393; São José do Divino, 324. Também apareceram votos em Piripiri, Madeiro, Matias Olímpio e Batalha. Nenhum desses números, isoladamente, decide uma eleição, mas somados ajudam bastante a explicar como uma candidatura de base municipal conseguiu ganhar largura suficiente para chegar à Alepi.

E então apareceu Teresina. Durante a campanha, Percy dizia que teria votação na capital e investiu em agendas de bairro, inclusive no Dirceu II, na Zona Sudeste. Quando as urnas fecharam, eram 2.599 votos, fazendo de Teresina sua terceira maior fonte eleitoral, atrás apenas de Parnaíba e Buriti dos Lopes. Esse talvez seja um dos dados mais interessantes da eleição, porque Percy não precisava ser competitivo na capital; precisava apenas deixar de ser invisível nela. Conseguiu.

O nome ainda apareceu em municípios do Centro-Sul e do Sul, como Castelo do Piauí, Campo Maior, Floriano, Oeiras, São Raimundo Nonato e Corrente. Em vários casos, são poucas dezenas de votos, mas suficientes para mostrar que a candidatura circulou além da geografia natural de um ex-prefeito do litoral.

Sem romantizar o mapa

Também convém não transformar uma boa eleição em epopeia. A votação de Percy continuou bastante concentrada: Parnaíba e Buriti dos Lopes responderam, juntas, por aproximadamente metade do total, e apenas oito municípios concentraram cerca de 80% dos votos. Portanto, não existe ainda uma liderança uniforme espalhada pelo Estado.

Existe outra coisa, e ela já é politicamente relevante: uma base muito forte, um segundo polo eleitoral importante e cerca de 8 mil votos obtidos fora do litoral, incluindo a capital. Numa eleição proporcional, isso basta para mudar o resultado. Percy não precisou dominar o Piauí inteiro; precisou ser muito forte onde possuía estrutura e suficientemente conhecido onde não possuía.

Essa combinação foi suficiente para produzir mandato.

O espaço deixado por Gracinha

A queda de Gracinha ajuda a compreender o outro lado do movimento. Antes da eleição, já era evidente que ela entraria numa disputa diferente da de 2022. Não tinha mais a Prefeitura de Parnaíba ao seu lado, havia perdido parte da rede de vereadores e chegava à campanha sem a mesma sustentação de prefeitos na região.

Na Planície Litorânea, sua votação caiu de 30.253 para 11.465 votos, redução de aproximadamente 62%. Percy alcançou 21.689 na mesma região. Seria tentador dizer que os votos simplesmente passaram de uma candidatura para a outra, mas política raramente funciona com tamanha elegância matemática. Eleitor não é patrimônio transferível.

O que mudou foi o ambiente ao redor das candidaturas. Gracinha perdeu parte importante da estrutura que havia sustentado sua eleição anterior, enquanto Percy encontrou prefeito, vereadores, lideranças e organização suficientes para ocupar uma parcela relevante daquele espaço. Voto não se herda, mas espaço político, quando fica aberto, costuma encontrar candidato.

O que 2026 realmente mostrou

A eleição de Júnior Percy não autoriza ainda proclamá-lo grande liderança estadual. Uma vitória é pouco para isso. Ao mesmo tempo, seria difícil tratá-la como simples acaso de legenda ou soma fortuita de apoios locais, porque há método no mapa.

Percy manteve Buriti, entrou em Parnaíba, construiu presença na Planície Litorânea, somou votos pelo Norte e apareceu em Teresina com uma votação que poucos esperariam de um ex-prefeito de uma cidade pequena. Saiu com 29.628 votos e uma cadeira na Alepi, mas talvez o mais importante seja que alterou a fotografia política do litoral.

Até pouco tempo atrás, parecia natural imaginar que a principal representação legislativa da região passaria por Parnaíba e pelo sobrenome Mão Santa. Em 2026, o deputado eleito veio de Buriti dos Lopes. A política tem pouca reverência por lugares reservados.

Agora começa a parte mais difícil. Ganhar uma eleição é uma coisa; transformar uma boa engenharia eleitoral em liderança regional duradoura é outra. Em 2028, quando prefeitos, vereadores e grupos locais voltarem às urnas, será possível saber se os 29.628 votos de 2026 foram apenas uma candidatura muito bem montada ou o primeiro capítulo de algo maior.

Por enquanto, a urna já disse o bastante: Júnior Percy saiu de Buriti dos Lopes, mas sua política, agora, já não cabe mais lá.

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